top of page

Depoimento do Pedro

 

Tudo começou antes de eu nascer com o êxodo rural vindo do Alentejo para a cidade. A cidade escolhida foi Almada que era um lugar ainda hoje cheio de revolucionários contra o regime, ou se era comunista ou de alguma seita proibida, o importante era serem contra o sistema. Foi assim que a minha família chegou convertendo-se em Testemunhas de Jeová ilegais a viverem na sombra.


O curioso é que a minha mãe acabou por namorar com alguém estranho à religião, aquele que viria a ser o meu pai, acabando mais tarde por ir combater na frente da guerra em Angola, passando o namoro a ser por carta durante anos, com a minha mãe cá e o meu pai na guerra colonial em Angola.


Quando os meus pais acabou a comissão em Angola regressou e casaram, com a minha mãe a convertê-lo numa espécie de futuro TJ. Um tio meu era um TJ fiel e recusou ir para a tropa, o que nesse tempo e em plena guerra era um acto de alta traição, foi preso e fugiu. O meu pai tinha regressado de Angola e como combatente tinha regalias pois tinha a carta militar e conseguiu informações como sair do país, então o meu pai estudou a forma do meu tio fugir para França. Havia em Elvas uma fábrica de tomate, que a troco de algo ajudavam a passar pessoas para Espanha sem serem vistas pela guarda civil nem pela PIDE. O meu pai fingindo um passeio deixou o meu tio em Elvas e este teve a ajuda de uns camponeses para atravessar o rio a nado durante a noite quando os camponeses dissessem que estava livre dos carabineiros da polícia que atiravam a matar. O meu pai conta que esperou nervosíssimo em Badajoz a chegada do meu tio, os minutos pareciam não passar, era já noite e bem depois do previsto quando o meu tio chegou todo encharcado em água e lama e sem nada, ficaram essa noite em Badajoz tendo o meu pai entregue roupas, dinheiro e uma passagem para a fronteira da França onde pediria asilo político e lhe davam trabalho. Esse meu tio era um dedicado TJ, ironicamente fugiu da guerra mas anos depois morreu num acidente.


Creio que esse acidente teve grande impacto na família e certo é que tempos depois deixaram todos de ser TJ, excepto a minha mãe e uma tia.


Quando se deu o 25 de Abril só a minha mãe era TJ. O meu pai era estranho, no início vinha com alguns problemas traumáticos típicos do pós-guerra devido a tudo o que passou. Isolava-se e não queria ver ninguém, embora gostasse de ir a assembleias não frequentava as reuniões normais, não participava no serviço de campo, dizia que não tinha "lata", ou seja, só a minha mãe era TJ e quis a todo o custo que eu e a minha irmã o fossemos também.


Então a minha infância resumiu-se a ir todas as semanas com a minha mãe às reuniões. Íamos às 3ªs-Feiras, por vezes às 5ªs ao estudo e ao fim de semana também a uma reunião. Claro que não tive alternativa de escolha ou dizer que não à minha mãe!


O meu percurso nas TJ foi de um pouco mais de 18 anos mas foi surreal e estranho. Acho que devo ter sido o pior TJ do mundo sem ser propriamente um rebelde ou dar nas vistas.


Portanto, nasci na “verdade”, sem que me lembre de muito até aos 6 anos. Depois disso, lembro-me de ir às reuniões até aos 12 anos e achar um bocado aborrecido estar ali 2 horas sentado. Lembro-me das assembleias de 4 dias no estádio do Restelo, que eram uma tortura, pois havia gente que desmaiava com o calor, às vezes os discursos mal se ouviam e eu perguntava o que estávamos ali a fazer se nem conseguíamos ouvir em condições.


Com 13 anos era crente nos ensinamentos e acreditava no que ouvia, embora nem sempre me portasse bem pois achava que era criança e teria tempo de me portar bem quando fosse grande.


Eu na realidade dava-me com toda a gente, nunca me relacionei apenas com TJ’s, ouvia música, via filmes, lia, passava o Natal com família (sem ser com a minha mãe), ia a aniversários, entrava em igrejas e ia a casamentos assistindo a missas, etc., ou seja o meu lado TJ resumia-se apenas a ir às reuniões com a minha mãe e também sair no serviço de campo umas poucas vezes com a minha mãe.


Por volta dessa idade fui pressionado a participar mais na congregação e tive a minha primeira gravata (que odiava) para proferir o meu primeiro discurso na tribuna. Foi um discurso que eu simplesmente li, mas nem sei já qual era o assunto visto ter feito por obrigação. Entretanto proferi mais 2 ou 3 discursos e acho que foi tudo.


A partir dos 14 comecei a fazer perguntas e mais perguntas e as respostas eram vazias. Comecei a colocar em causa a bíblia devido ao conceito sobre o dilúvio, Adão e Eva e a criação. As respostas que me davam eram que tudo tinha que ter tido um começo e obra de um Criador, perguntando eu de seguida “quem criou Deus?”. As respostas eram vazias e aos poucos passei a acreditar menos, até não acreditar em rigorosamente nada! Incrível mas em 18 anos dentro das TJ, nunca fiz um amigo pois entrava mudo e saia calado sempre ao lado da minha mãe.

 
A minha mãe teve o cuidado de arranjar anciãos para me darem estudos bíblicos a mim e à minha irmã, devemos ter tipo mais de 20 anciãos a darem estudos e todos se fartavam de nós, eu é que os enchia de perguntas e eles viam em nós casos perdidos, pois fazíamos perguntas proibidas. A partir dessa idade já era totalmente ateu, no entanto ia sempre com a minha mãe 2 ou 3 vezes por semana às reuniões, mas era uma estátua lá dentro. Às vezes passava uma reunião inteira sentado a ver a o ancião na tribuna, embora o meu pensamento fosse todo o tempo concentrado em "mulheres nuas", o que é normal para um adolescente na fase da puberdade.


A partir dos 16 anos voltei a sentir pressão para tomar a decisão de me baptizar, para não ir à tropa e ser objector de consciência, mas eu via as Testemunhas de Jeová como serem intelectualmente inferiores. No entanto dava-me gozo fazer perguntas e desafiá-las, na realidade gostava de ler a bíblia e lia os livros da WT mas não acreditava em nada, mas lia numa de curiosidade e perversão para desafiar quem me viesse dar estudos bíblicos.


Tinha uma ideia extremamente racional relativamente ao que era a religião e lia muitas coisas sobre religião e filosofia, acerca da fé e das religiões e das seitas na perspectiva de um ateu.


Com 16 anos e ateu pensei pela primeira vez que afinal era um ser mortal, ou seja, pensei que um dia ia morrer e afinal não viveria para sempre! Isso fez-me ter um ataque de ansiedade e fez com que eu fosse ao médico, nunca ninguém até hoje sabe a verdadeira causa daquilo que estou aqui a contar, mas felizmente aprendi a viver com esta novidade de ter de morrer um dia como toda a gente.


Aos 17 anos fui obrigado a dar o nome para a tropa o que deixou a minha mãe algo triste e aos 18 anos tive a ultima tentativa de me converterem, mas foi em vão, pois eu é que tentava converter os anciãos, até que a minha mãe desistiu uma vez que já adulto, pelo que nunca cheguei a ser baptizado.


Dois anos depois entrei no exército e fui militar, estive lá um ano na recruta encarando-a como um desporto radical e o restante tempo estive numa secretaria em trabalho normal, até me diverti lá dentro. Tive no entanto treinos de guerra normal para um militar. Um dia num desses treinos de guerra ao acabar entrámos numa sala e tivemos uma aula com um padre militar, surreal achei eu, depois de uma aula de espingarda automática na mão onde nos ensinam a matar, entro numa sala e está um padre oficial militar que fala de paz e amor.

 

Já o meu pai conta que nas operações no mato em Angola na guerra, cada soldado ia com a sua G3, 10 carregadores, granadas, havia o homem das bazucas e com peças móveis de artilharia. Entretanto no pelotão, neste cenário de guerra real, havia um padre que apenas tinha uma pistola, ou seja, o padre tinha a sua simples pistola talvez por ser um pecado menor, o meu pai diz que nunca entendeu aquilo... e eu também não!

 

Entretanto a minha mãe afastou-se das TJ nunca chegando a saber porquê, no entanto anos mais tarde umas TJ foram bater à porta e reconheceram a minha mãe que afirmou que não concordava com algumas ideias mas nunca me disse quais.

 

Anos depois o casamento dos meus pais chegou ao fim, divorciaram-se! O meu pai voltou a casar e a minha mãe juntou-se (não casou por questões jurídicas), fazendo o contrário daquilo que sempre disse. No entanto, vejo ainda hoje em casa da minha mãe revistas Despertai! e A Sentinela, acho que ela ainda é crente mas completamente perdida a nível de "organização", aliás na situação dela deve ter sido desassociada de certeza, pois perante a ORGA além de não participar, é divorciada e vive em "fornicação", o que acho uma parvoíce dizer-se isso pois a minha mãe apesar de não ser casada oficialmente perante o Estado é "casada" moralmente há 15 anos.


Na realidade não sinto nenhum trauma ou angústia, pois o que eu passei foram horas e horas a assistir reuniões, mas deu para aprender muita coisa, não o que eles queriam mas aquilo que eu quis da bíblia, apesar de não acreditar no lado espiritual e esotérico da mesma, aproveito os ensinamentos e as filosofias humanas de Jesus.


Acho que o facto de ter "sido" TJ fez-me ser muito racional, ser independente na forma de pensar, ter mente aberta, ter uma moral criada por mim, ser eu a avaliar o bem o mal, a ver o mundo de muitas formas e perspectivas.


Sobre a "organização" acho fascinante estas empresas religiosas controlarem as massas! O que acontece com a WT acontece com todas as outras religiões onde os seus líderes vivem do dinheiro dos seus fiéis. É bom perceber o mundo e a forma como estas coisas funcionam.

Realmente o facto de ter descoberto este fórum fez-me recuar no tempo e falar pela primeira vez desta breve passagem de 18 anos pelas Testemunhas de Jeová.

 

Independe (Pedro), Lisboa, 12 de Agosto de 2012

 

© 2015 Ex - Testemunhas de Jeová em Portugal

  • facebook-square
  • Twitter Square
  • google-plus-square
bottom of page